Inflação: Panorama econômico nacional e internacional

No final de Setembro, o Banco Central liberou o Relatório Trimestral de Inflação com o objetivo de apresentar as considerações acerca da evolução recente do cenário econômico e previsões para a inflação. O documento possui uma importância ímpar, pois é o segundo a ser feito no contexto da pandemia e em um cenário em que as atividades econômicas que estiveram em pausa ou em ritmo reduzido nos últimos meses estão em ritmo de retomada, e isso teve impacto direto na inflação. 

Dessa forma, observando a relevância do cenário econômico, se vê como primordial apresentar como estão as economias do mundo em comparação com a do Brasil e também como estão se saindo os principais setores da economia brasileira. 

Conjuntura econômica Externa 

Durante o último semestre diversos países divulgaram os números atuais relativos à atividade econômica. O observado foi um cenário de quedas sincronizadas e extraordinárias em todo o mundo. O mercado global continua operando abaixo da média histórica. Entretanto, de forma idiossincrática, observa-se a mitigação dessa crise por meio de medidas de suporte substanciais, amplas e tempestivas, como por exemplo, a compra de ativos por parte dos governos, e linhas temporárias de liquidez, que já possuem prazo de encerramento conhecido. Desse modo, mesmo com as quedas históricas, as condições financeiras e os fluxos de capital tendem a acomodar-se de forma gradual. 

No tangente à inflação, o Fed (Federal reserve), Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos, anunciou mudança na forma de condução da política monetária. Tendo como reação considerar uma meta de 2% para inflação e que as decisões para conduzir tais políticas passem a visar não apenas essa meta mas também o nível máximo de emprego. A importância dessas mudanças no Fed se dá  devido ao dólar ser a moeda utilizada como referência monetária, assim,  tal política tende a ser seguida pelo mundo. 

Nos Estados Unidos, o PIB do segundo trimestre se contraiu em 31,7% (taxa trimestral  em comparação com o período correspondente no ano anterior). Isso se deve especialmente pela queda de consumo e de investimento privado, assim como por causa do fechamento das indústrias. Os dados para o próximo semestre indicam uma recuperação relativa, porém não será o suficiente para compensar as perdas do primeiro semestre.  Na Área do Euro, a contração foi por volta dos 40%, mas de forma heterogênea nos países da zona. Aqueles que apresentaram maior sucesso no controle da pandemia e que conseguiram transferir suas atividades para o trabalho remoto tiveram a menor contração. No Japão, a queda do PIB atingiu taxa recorde de 28,1%. O cenário é similar com os EUA, ou seja, espera-se uma taxa de recuperação forte no terceiro trimestre por conta da reabertura das atividades, porém insuficiente para compensar as quedas consecutivas nos trimestres anteriores. Por outro lado, a China volta a crescer, alcançando níveis de produção industrial próximos ao cenário pré-pandemia. 

Gráfico extraído do Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central 

Conjuntura econômica Interna

A crise do novo Coronavírus abalou diversos setores da economia brasileira, em especial o comércio e o setor de serviços. Na indústria, o setor de transformações foi o mais afetado. Porém, aos poucos a economia vem retomando sua força, apesar da forma desigual e lenta. Na última grande crise vivenciada no país, o Banco Central reduziu os compulsórios – fração dos depósitos bancários realizados nos bancos e que necessitam ficar retidos no BC – como uma medida emergencial, mas na atual crise a medida não teve a eficácia esperada. A PEC 10/2020  foi aprovada com uma série de medidas para situações emergenciais, como guerras e calamidade federal e introduziu a medida mais drástica: a quebra da Regra de Ouro. 

Com essa nova norma o Governo poderá gastar mais do que receberá, de forma simplória. Essa situação causou apreensão e preocupou críticos da PEC que apontaram os riscos para a inflação. Felizmente, a recuperação econômica está acontecendo mais rápido do que era esperado, apesar do setor de serviços ainda está abalado em razão do distanciamento social. Ademais, o aumento histórico da taxa de inadimplência e a desvalorização do real afetaram essa retomada. 

Perspectivas para a inflação até 2023

    O CMN (Conselho Monetário Nacional),  órgão federal que tem poder de formular medidas de crédito e moeda, estabelece metas e panoramas para inflação no período futuro de até três anos. O objetivo com isso é de atuar no controle dela e buscando mantê-la sempre próxima ao desejado. No último relatório do Banco Central as perspectivas não eram muito promissoras, apesar de mais otimistas em razão da retomada gradual da força de setores da economia. As projeções para 2021 são de certa forma preocupantes, já que a taxa de inflação provavelmente estará acima do tolerável. 

Em agosto, fim do trimestre de análise da inflação, esta ficou em 0,01 pontos percentuais abaixo do cenário esperado pelo Banco Central. Esse resultado confirmou que a inflação continuará alta, preocupando ainda mais quando acumulada até o final do ano, prevista pelo relatório para ficar em aproximadamente 2,1% ao ano. O Banco Central ainda apontou altas nos valores de produtos alimentícios e o preço dos serviços, que sofreu queda na fase aguda da pandemia, mas deve voltar a crescer com a reabertura gradual nos Estados. Esses fatores afetam fortemente o poder de compra do brasileiro e podem piorar os índices da inflação. A projeção central para os anos seguintes é de que a inflação tende a encerrar 2021 em 2,6%, e em seguida 3,1% e 3,3% em 2022 e 2023 respectivamente. 

Fonte: Banco Central 

Os principais fatores de risco que podem afetar tal projeção são, por um lado, o nível de ociosidade – concentrado no setor de serviços – que pode produzir uma inflação abaixo do esperado. Esse risco se intensifica com o aumento da incerteza relacionada ao futuro da pandemia e o aumento da poupança precaucional. Por outro lado, a piora na trajetória fiscal do pais devido as políticas fiscais de resposta à pandemia e a diminuição da demanda agregada, em razão dos programas de estímulo creditício e de recomposição de renda implementados no combate à pandemia, podem elevar os prêmios de risco. Com isso, implica-se uma potencial diferença na trajetória para a inflação projetada, de modo com que ela fique acima do esperado no horizonte relevante para a política monetária.

Escrito por João Victor Mota e Rebeca Carvalho

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