Eleições Americanas de 2020: Primárias Democratas, Governo Trump e a Crise da Covid-19

Economia, empregos, imigração, mudanças climáticas e saúde pública. Essas pautas estão inseridas nos debates presidenciais americanos dos últimos anos e, por conseguinte, os temas que serão discutidos nas eleições deste ano devem seguir a mesma lógica. Contudo, pode-se observar que a pandemia da covid-19 afetou o cenário econômico e político dos EUA, o que certamente influenciará a forma como os candidatos lidarão com cada uma dessas temáticas. Neste texto, será dado um panorama geral acerca da situação das Primárias Democratas e do governo de Donald Trump, além de uma análise sobre como a crise do novo coronavírus poderá afetar a corrida eleitoral.

Bernie Sanders x Joe Biden

Um dos possíveis candidatos à Presidência pelo Partido Democrata é Bernie Sanders, ex-prefeito da cidade de Burlington, em Vermont, e atual senador pelo mesmo estado. Tido como um “socialista clássico”, Bernie é conhecido por atuar em favor da classe trabalhadora, sendo chamado na House of Representatives (a Câmara dos Deputados dos EUA) de o “Rei das Emendas”, já que elaborou mais Emendas à Constituição do que qualquer outro membro do Congresso durante seu mandato como deputado.

Também conhecido por não deixar suas convicções e pensamentos acerca do socialismo de lado, Bernie tem sido muito criticado pelo establishment americano exatamente por defender pontos considerados polêmicos pelos estadunidenses, como a criação de uma saúde pública universal e a defesa de aspectos positivos do Regime dos irmãos Castro em Cuba.

Segundo pesquisa do Associated Press Voter Survey, o candidato socialista tem demonstrado melhor desempenho entre a população jovem dos EUA que se considera de esquerda, obtendo 57% dos votos entre os estadunidenses de 18 e 44 anos no estado do Michigan e vencendo o caucus no Estado da Califórnia, um dos principais centros progressistas do país, com uma votação de 70% entre os eleitores com menos de 30 anos.

Entre as propostas de Sanders que são atrativas para a população jovem dos EUA, podem-se destacar: a defesa do projeto Green New Deal, que visa fomentar a infraestrutura em energias renováveis; um programa na área da saúde onde os planos de saúde privados são suprimidos, exceto nas áreas que o Medicare não oferecer cobertura; a ampliação da Deferred Action for Childhood Arrivals do governo Obama (política que busca proteger da deportação imigrantes que chegaram aos EUA ainda crianças, além de lhes conceder uma permissão para trabalhar no país); e a garantia da equidade de salários entre homens e mulheres através do Paycheck Fairness Act, além da elevação do salário mínimo para US$15 por hora de trabalho. 

Já para o segundo candidato remanescente na disputa, Joe Biden, a situação parece estar em um momento mais favorável. Os créditos que Biden tem advém do fato de ele ter sido senador por Delaware durante 36 anos e ter sido o vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo de Barack Obama, o que pode explicar as vitórias que ele vem acumulando nas últimas primárias realizadas. Entre os estados em que Biden saiu vencedor recentemente, estão Arizona, Illinois (reduto político de Barack Obama) e Flórida, onde especialistas creditam a vitória sobre Bernie à grande quantidade de imigrantes cubanos fugidos da ilha, que reagiram negativamente aos comentários controversos de Sanders em relação ao regime cubano.

Durante a sua candidatura, Biden tem procurado mesclar aspectos econômicos e sociais, o que inclui um plano de US$1.7 trilhão para eliminar as emissões de gases de efeito estufa nos EUA até 2050; a defesa de um caminho favorável para conceder cidadania americana à imigrantes sem documentação; e um plano para a ampliação do Obamacare, dando mais liberdade para o cidadão escolher um plano de saúde de acordo com suas necessidades. Segundo Biden, o atual governo de Donald Trump está retrocedendo com relação à algumas conquistas do plano de saúde universal aprovado por Obama em 2010.

Uma das dificuldades que Bernie Sanders enfrenta durante sua disputa com Joe Biden reside no fato de que os jovens americanos, grande parte do eleitorado de Sanders, não se sentem estimulados para participar do processo eleitoral. Em nenhum estado onde as primárias já ocorreram os jovens votantes ultrapassaram a marca de 20% do eleitorado. Segundo a BBC, existem inúmeros fatores que podem explicar isso, como a desilusão dos jovens com a política; a falta de informação de estudantes de ensino médio sobre o processo eleitoral e a desmotivação de se votar pela primeira vez, expresso, por exemplo, na perda da data para registro de eleitorado.

A segunda maior dificuldade de Sanders se encontra em conseguir fidelizar o voto dos ditos blue-collars, aqueles trabalhadores que costumam realizar trabalhos mais manuais. Como sempre se disse a favor da classe trabalhadora, era de se esperar que Sanders obtivesse a maioria dos votos desses eleitores. No entanto, quem tem levado a melhor é Biden, que obteve uma margem de vitória de 18% entre os eleitores do Michigan que são filiados à algum sindicato. Um dos motivos, segundo o The Washington Post, se deve à conquista, por intermédio de negociações coletivas, de planos de saúde favoráveis aos trabalhadores, algo que Sanders propõe extinguir caso seja eleito.

Veja algumas diferenças entre os candidatos à Presidência pelo Partido Democrata no infográfico abaixo:

Fiction vs Non-Fiction (2)

Dados compilados de pesquisas da FiveThirtyEight, YouGov, PredictIt e The Economist mostram que Biden tem a preferência de votos de quase 80% do eleitorado afro-americano, muito devido à vice-presidência exercida durante o governo de Barack Obama. Além disso, segundo a mesma compilação, Biden é o candidato mais bem preparado para mais de 80% da população americana com mais de 65 anos, grande parte da qual não abre mão de participar das eleições, diferentemente da população mais jovem dos EUA. Por fim, Biden leva vantagem contra Sanders com um percentual aproximado de 75%-25% entre aqueles eleitores que se consideram “moderados” (entre os espectros políticos).

Governo Trump e o impacto da pandemia do novo coronavírus nos EUA

A grande questão a se levantar, entretanto, é como a pandemia do novo coronavírus pode impactar o cenário econômico e político do país. Na data da publicação deste texto os EUA já registraram mais de 215 mil casos da doença e mais de 5 mil mortes, números esses que têm forçado alguns estados a postergar seus Caucuses, como é o caso de Ohio, Georgia, Maryland, Louisiana e Kentucky. Essas mudanças tendem a favorecer Sanders, já que nesses estados as pesquisas davam ampla vitória a Biden.

Toda essa crise já afeta diretamente a dinâmica das eleições. Todos os três pré candidatos (Biden, Sanders e Trump) são septuagenários, portanto, fazem parte do principal grupo de risco da doença. Por conta disso, os possíveis candidatos já estão optando por campanhas mais afastadas do público, sem os tradicionais comícios e palanques, trocados agora por púlpitos improvisados em frente às residências de cada um.

Donald Trump é outro candidato que está sendo beneficiado politicamente pela pandemia da covid-19. Pelo fato de estar “sentado na cadeira”, Trump pode ser considerado, por parte da população, o responsável por algumas políticas de combate ao vírus. Um exemplo disso é o pacote de US$2 trilhões em ajuda à economia e à saúde que o Congresso aprovou conjuntamente com o Executivo. Essas medidas já estão provocando aumento da aprovação do Governo em pesquisas recentes, o que está dando a Trump um certo alívio. Segundo pesquisa de avaliação governamental feito pela Gallup de 22 de Março, Trump atingiu o patamar de 49% de aprovação, o maior em seu mandato, contra 44% apontado pela pesquisa do início do mês.

Esse aumento da aprovação se deu também, surpreendentemente, entre eleitores do Partido Democrata e de partidos independentes. Entre os primeiros, o aumento foi de 6 pontos percentuais, enquanto que entre os independentes o aumento foi de 8% em relação à pesquisa anterior.

Veja o índice de aprovação do Governo Trump entre 2017 e março deste ano:

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Contudo, é importante salientar que aumentos repentinos na aprovação de um governo nos EUA é comum, ainda segundo a Gallup, durante períodos traumáticos, onde os cidadãos se sentem “sob ataque”, com picos de aprovação ocorrendo em épocas de crise desde o governo de Franklin Roosevelt, entre 1933 e 1945. Alguns dos exemplos são a alta de 35% na aprovação de George W. Bush após os ataques terroristas de 11 de Setembro e o acréscimo de 7% na aprovação de Obama após a morte de Osama bin Laden em 2011.

Conclusão

É difícil prever com certeza qual é o resultado final da eleição de Novembro nos EUA. No cenário em que Joe Biden é o candidato contra Donald Trump, a disputa parece ser bem favorável ao Democrata. Estudos feitos pela Harvard e Harris entre os dias 24 e 26 de Março preveem uma vitória de Biden por 10% de vantagem. Já a Real Clear Politics aponta uma diferença de 6%, com Biden vencendo inclusive com mais de 50% dos votos. Já para o caso de Sanders ser o nomeado pelo Partido Democrata, a disputa é mais acirrada, mas ainda assim as estimativas e estudos preveem a vitória do candidato Democrata.

Como visto em 2016, entretanto, pesquisas de intenção de voto precipitadas podem trazer resultados equivocados, ainda mais se não levarem em consideração variáveis que ainda não podem ser medidas, como o impacto da pandemia da covid-19 em aspectos como a economia, o desemprego e a capacidade do sistema de saúde americano de lidar com o vírus. Dificilmente as eleições gerais serão adiadas ou canceladas, já que seria necessário a aprovação do Congresso para que isso ocorresse. No entanto, Trump ainda pode tomar medidas que dificultariam o próprio ato de votar durante as eleições, como, por exemplo, fechar locais de votação alegando questões de saúde pública, o que acabaria beneficiando o candidato Republicano em estados que sua vitória é quase impossível.

Como sugestão para melhor entendimento do assunto, indicamos a leitura de outro post no nosso blog, onde as diferenças entre as eleições americanas e as brasileiras são abordadas, focando mais em questões técnicas, como por exemplo o que são os caucuses e como funciona a votação, já que no caso americano ela ocorre de forma indireta, uma vez que os eleitores elegem os delegados e estes que elegem o Presidente.

Link do outro post: https://blogstrategos.wordpress.com/2016/09/29/eleicoes-nos-estados-unidos/

Feito por Cláudio Py e Daniel Melo

Fontes bibliográficas:

Bernie Sanders 2020: Polls, news and on the issues

Bernie Sanders — Democratic primaries 2020

blogstrategos.wordpress.com/2016/09/29/eleicoes-nos-estados-unidos/

edition.cnn.com/election/2020/candidate/biden

Electoral distancing – Joe Biden builds an insurmountable lead | United States

How Huge Voter Turnout Eluded Bernie Sanders on Super Tuesday

Joe Biden — Democratic primaries 2020

Joe Biden for President: Official Campaign Website

Meet Bernie

Opinion | Why is Sanders tanking? He’s the wrong candidate with the wrong message at the wrong time.

President Trump’s Job Approval Rating Up to 49%

Sanders leads among Latinos, whites and young voters in California exit polls

Sanders says ‘it’s unfair to simply say everything is bad’ with Fidel Castro’s Cuba

Super Tuesday: Why didn’t more young people vote?

United States Coronavirus: 215,175 Cases and 5,110 Deaths

What the polls say about a Donald Trump vs. Bernie Sanders election

What the polls say about a Donald Trump vs Joe Biden presidential matchup

Who is ahead in the Democratic primary race?

 

 

 

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