Candidaturas negras

          A população negra (soma de pardos e pretos, segundo critérios do IBGE) representa 54% dos brasileiros. No entanto, se olharmos para os espaços de poder da Política, esse grupo ocupa uma porcentagem bem menor. No âmbito federal, o gráfico produzido pela Câmara dos Deputados mostra o tamanho da desigualdade em relação aos deputados eleitos para a próxima legislatura (2019-2022):

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          Para os professores do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) Luiz Felipe Miguel, Danusa Marques e Carlos Machado (2015) alguns fatores ajudam a explicar essa disparidade. O capital familiar (ou seja, a presença de parentes próximos em lideranças políticas) e o capital político (que se trata do reconhecimento dos membros do campo político da capacidade do ator agir politicamente) são fundamentais para o sucesso de uma candidatura. Para as candidatos brancos, esses capitais estão muito mais disponíveis, mas para os negros eles podem ser um empecilho. Os próprios partidos tendem a recrutar e investir menos em candidaturas negras. A tabela abaixo mostra a quantidade de candidaturas negras nas Eleições de 2014 e 2018 e explicita que esse número ainda é menor comparado a proporção da população (54%):

CANDIDATURAS

2014

2018

Preta

Parda

Preta

Parda

FEM. 679 2,96% 2328 10,16% 1153 4,14% 2862 10,28%
MASC. 1425 6,22% 5581 24,36% 1842 6,62% 6995 25,13%
Total 2104 9,18% 7909 34,53% 2995 10,76% 9857 35,41%

Fonte: TSE

          No entanto, em 2018 houve um evento atípico que influenciou diretamente a aceitação pelos partidos de um número maior de candidaturas femininas pretas: o assassinato da vereadora Marielle Franco. Em relação à Eleição de 2014, o aumento de candidaturas de mulheres negras aumentou 70%. Além disso, também houve um aumento significativo no número de eleitas: em 2014 foram 9 mulheres negras, em 2018 foram 26. No entanto, as demais categorias de negros eleitos se mantiveram constante.

          A presença de candidatos negros é relevante em todos os âmbitos de representação. Para Ilka, ex-candidata a deputada distrital pelo PSOL em 2018, ‘’a importância das candidaturas negras é trazer as questões de raça para a centralidade e promover uma verdadeira inclusão da população negra que vem sido secularmente marginalizada em tudo. A representatividade tem não só um caráter simbólico, mas um efetivo de transformação e de dar um novo olhar para a política nesses espaços de poder’’. Ela buscou tratar a questão de gênero e raça de forma transversal, pautando-as em todos os setores que passam pelo governo do DF (ex.: orçamento, educação, saúde, segurança pública, etc.). Sua proposta, caso eleita, era a de fiscalizar o Executivo local e cobrar investimentos na questão étnico-racial que não são executados pelo orçamento.

          Vários são os fatores que dificultam a eleição de candidatos negros e a sua presença nos espaços de poder. Neste dia em que se celebra o Dia Nacional da Consciência Negra, o nosso objetivo é promover uma reflexão sobre assuntos tão sensíveis para nossa sociedade. Por que uma parte da população está sub-representada na Política?

Referências:

MIGUEL, Luis Felipe, MARQUES, Danusa and MACHADO, Carlos. “Capital Familiar e Carreira Política no Brasil: Gênero, Partido e Região nas Trajetórias para a Câmara dos Deputados”. Dados, 2015, vol.58, n. 3, p.721-747.

Autores: Strategos Consultoria Política Jr. e Ubuntu (Frente Negra de Ciência Política da UnB)

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